Fátima tem mais segredos para revelar do que os confiados aos pastorinhos. No santuário, existe um arquivo com cerca de oito milhões de mensagens enviadas a Nossa Senhora, oriundas de todo o mundo e escritas por pessoas das mais variadas classes sociais. «Com uma escrita que se revela como uma conversa com a amiga mais íntima.» Um conjunto de documentos praticamente desconhecido que o autor e jornalista António Marujo traz para a luz do dia, numa investigação inédita que a Temas e Debates publicou a 2 de outubro.
Se cada carta tem os seus interesses e mistérios, «todas juntas revelam muito do que era o país, há poucas décadas, marcado ainda pelo analfabetismo, pobreza e falta de proteção social.» Focando-se apenas nas cartas enviadas até 1977, António Marujo traça um retrato único de uma parte da sociedade portuguesa poucas vezes representada, onde são reveladas as suas opiniões sobre a guerra e a paz, a fé e a descrença, amores proibidos, saúde e dinheiro, justiça e política. Como se novos segredos de Fátima se revelassem aos nossos olhos. «Na sequência do que outros têm defendido, torna-se, por isso, evidente que cada vez menos Fátima deve ser um fenómeno unívoco, mas reflete antes a complexidade cultural, social, política e religiosa, seja do país, seja do próprio catolicismo.»
Do posfácio de Joaquim Franco: «A riqueza destes documentos, que em boa hora o Santuário entendeu preservar e agora disponibilizar para estudo, permitem, por exemplo, analisar a evolução da religiosidade portuguesa vivenciada em Fátima ou com Fátima, a relação com a entidade Nossa Senhora de Fátima ou até a história das ideias sobre Fátima e a religião, em Portugal e no mundo. Este espólio tem um elevado potencial de investigação. São testemunhos quentes e, até por isso, por vezes inquietantes. Alguns conteúdos cortam-nos a respiração. Entre as cerca de 50 mil mensagens que nos passaram pelas mãos, como não ficar inquieto com testemunhos de vida, na primeira pessoa, sem constrangimentos ou mediações?»