2025-07-04

Das práticas femininas ao comércio do medicamento: uma invulgar história da medicina que explica o atual negócio da saúde


Em A Mulher do Boticário, Karen Bloom Gevirtz mergulhou numa série de arquivos para contar como os medicamentos caseiros passaram a ser uma mercadoria e, consequentemente, uma indústria lucrativa.

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Ao contrário do que se costuma dizer, a medicação não melhorou durante a Revolução Científica. No entanto, de alguma forma, entre 1650 e 1740, a mulher doméstica e o médico trocaram de lugar na consciência cultural: ela tornou-se a curandeira ineficaz e potencialmente perigosa; ele, o especialista conhecedor e fiável. Os profissionais normalizaram a ideia de as pessoas lhes pagarem por aquilo que já recebiam em casa gratuitamente, lançando as bases da chamada Big Pharma e do atual sistema global de medicamentos com fins lucrativos. Em A Mulher do Boticário, Karen Bloom Gevirtz conta esta parte pouco explorada da história da medicina.

«A Mulher do Boticário explica como, quando e através de que meios a Revolução Científica catalisou a substituição dos medicamentos caseiros por outros feitos por boticários e prescritos por médicos», escreve a autora na introdução. «Este livro revela também que a Revolução Científica transformou todo o conceito de medicação, passando esta de item doméstico a mercadoria, algo que se vendia e se comprava.»

Nesta reveladora história da medicina, Gevirtz desafia os mitos do triunfo da ciência e desvenda a fascinante verdade por detrás dos sistemas de saúde vigentes a nível global. «Este livro não é apenas uma história da medicina, mas também uma história do sistema económico desenvolvido para a circulação de medicação enquanto mercadoria. Tal sistema económico protege, normaliza e obscurece o estatuto de mercadoria da medicação.»

Esta transformação da medicina, que passou de um sistema liderado por mulheres a um empreendimento económico, converteu-se na nossa herança fatal, na qual dois mil milhões de pessoas — quase 30 por cento da população mundial — não têm acesso sequer a medicamentos básicos. A autora defende que muito se perdeu neste momento da história em que a medicação se tornou uma mercadoria e a doença passou a ser um problema exclusivo do indivíduo. «Todo um sistema de saúde (a medicina doméstica das mulheres) foi trocado pelo que temos (a medicina com fins lucrativos). Não há nada no atual sistema de medicação que seja natural, eterno ou inevitável.» Contudo, a autora sublinha que o livro não hostiliza nem os homens nem o capitalismo.

A Mulher do Boticário começou numa cave com quatrocentos anos, quando o arquivista da Biblioteca de Chawton House apresentou a Karen Bloom Gevirtz ao «Herbário de Blackwell», um guia de plantas e seus usos na medicina criado por Elizabeth Blackwell entre 1735 e 1739. Através de uma rigorosa investigação de arquivos, a autora analisa questões relacionadas com os cuidados de saúde globais, tanto no passado como no presente, abrangendo um vasto leque de lugares, tais como França, Alemanha, Espanha, Itália, Países Baixos, Portugal, Austrália, Samoa, China, Índia, Bangladesh, Ilhas Molucas, Madagáscar, Malawi, África do Sul, Caraíbas e Amazónia.